Uma vacina para Doença de Alzheimer

Postado em: 09.05.2016

Autor: Dr. Glauber Ferreira, médico neurologista na Clínica da Memória.

Há exatos 15 anos as manchetes dos principais jornais de neurologia repercutiam os primeiros resultados de estudos de uma possível vacina contra a Doença de Alzheimer. Batizada de AN-1792, a vacina agia removendo das células do cérebro de camundongos uma proteína sabidamente relacionada a doença de Alzheimer: a proteína amiloide.

Sabemos que essa proteína, por algum motivo desconhecido, torna-se insolúvel e passa a se acumular ao redor dos neurônios e formar placas amilóides. Essas placas eventualmente levam ao surgimento de uma outra proteína anormal, a proteína Tau, que por sua vez provoca a formação de emaranhados neurofibrilares, que levam a perda de sinapses e morte de neurônios causando assim a demência. Essa cascata de eventos, até então inexorável, parecia ser finalmente passível de ser detida. Mas não foi assim que aconteceu.

 

Em janeiro de 2002, quando o estudo chegou a testes em seres humanos, uma grave complicação provocou a interrupção do estudo: em 6% dos pacientes testados, o sistema imunológico, ao tentar retirar a proteína anormal, provocou uma perigosa meningoencefalite (uma inflamação do cérebro).  O cientistas tiveram de repensar uma nova estratégia.

Mas o que deu errado? O mais provável é que o tratamento tenha sido iniciado tarde demais. Nessa última década, constatou-se, através de novos exames de imagem molecular, que a sequência de eventos que levam a doença de Alzheimer começa muito antes do que se imaginava. Estima-se que o depósito de proteína amiloide possa começar 15 a 20 anos de qualquer sintoma.

Ao se vacinar pacientes com grande quantidade de amilóide cerebral, o sistema imunológico atuou com grande intensidade, culminando em uma reação inflamatória ainda mais nociva do que o mal que se pretendia evitar.

Hoje é possível detectar a quantidade de amilóide presente no cérebro de uma pessoa ainda sem sintomas através do exame de PET-amilóide.

Exame de PET mostra em cima cérebro saudável e abaixo cérebro com demência repleto de depósitos de proteína amiloide (em vermelho).

Exame de PET mostra em cima cérebro saudável e abaixo cérebro com demência repleto de depósitos de proteína amiloide (em vermelho).

 

É bem provável que no futuro esse exame seja indicado para pessoas acima de certa idade para detecção precoce de anormalidades que levam a doença de Alzheimer. Esse seriam candidatos ideais a uma imunoterapia por meio da vacinação. Seria algo de rotina como um exame de mamografia ou colonoscopia na prevenção do câncer.

Ainda não temos uma boa vacina para prevenção da demência ou mesmo um bom tratamento para os doentes, mas o futuro parece promissor. Dois anticorpos monoclonais, o solanezumab e o aducanumab estão em fase 3 de estudo em grandes grupos populacionais com resultados promissores. Esses medicamentos são eficazes no tratamento daqueles que já estão sintomas e podem estar disponíveis no mercado no prazo de 2 a 3 anos.

Quanto à vacina, exames modernos de imagem estão aprimorando a seleção de candidatos. Quanto mais cedo for empregada, melhora parecer ser o resultado, mas nesse caso ainda estamos mais distantes de um produto disponível no mercado.

Enquanto não dispomos de um bom tratamento, convido o leitor a acessar o nosso blog para conhecer medidas sabidamente eficazes na prevenção da doença de Alzheimer. Essas incluem dieta, atividade física e estimulação intelectual.