Novo tratamento para enxaqueca

Postado em: 19.07.2016

Autor: Dr. Glauber Ferreira, médico neurologista na Clínica da Memória

Já faz algum tempo que se sabe que o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) tem culpa no cartório. Essa molécula de nome complicado está diretamente implicada nas crises de enxaqueca e esse é fato conhecido há mais de uma década. Ele age provocando a liberação de agentes inflamatórios e dilatando vasos dentro do cabeça. O resultado disso é uma forte dor latejante, associada à náuseas, aversão à luz e barulhos que pode durar horas e arruinar a vida de muita gente. Até agora não se conhecia nenhum medicamento capaz de impedir que esse peptídeo deflagrasse crises de enxaqueca.

Um novo medicamento denominado TEV-48125 tem um mecanismo inusitado e é resultado da engenharia genética moderna. A droga é um anticorpo monoclonal completamente humanizado gerado a partir de clones de linfócitos B, que são células de defesa do nosso corpo. Esse anticorpo ataca o CGRP e o inutiliza. Faz isso de forma muito específica, o que poupa o usuário de muitos efeitos colaterais normalmente associados à outras drogas usadas no tratamento da enxaqueca. A droga é o equivalente a um míssil teleguiado e o CGRP é o seu alvo.

 

 

Como o peptídeo CGRP provoca a crise de enxaqueca

Como o peptídeo CGRP provoca a crise de enxaqueca

 

Os resultados de ensaios clínicos de fase 2, onde são estudados grandes grupos de voluntários, foram recentemente publicados no Lancet Neurology e no Neurology. Foram relatados redução significativas na quantidade de crises de enxaqueca em comparação com o placebo. O mais notável é que o efeito benéfico foi observado muito cedo. Cerca de uma a duas semanas depois do início do tratamento. Nenhuma das droga usadas na prevenção de enxaqueca atualmente entrega resultados tão cedo. Os efeitos colaterais, justamente pela droga ser tão específica, também foram bem toleráveis.
Mas nem tudo são boas notícias. Há dois problemas. Primeiro: um medicamento biológico resultado de bioengenharia complexa não vai sair barato. Especialmente no preço de lançamento. Segundo: o medicamento vai ser de uso subcutâneo, semelhante à insulina. Deve ser administrado quinzenalmente ou semanalmente. A frequência e a dose ideal ainda não foram determinadas.

Além do TE-48125, outros três anticorpos monoclonais de outras empresas farmacêuticas estão em fase avançada de ensaios clínicos. É provável que tenhamos lançamentos simultâneos de drogas com perfil muito parecido. A novidade deve chegar nos próximos anos salvo o surgimento de algum efeito colateral muito grave. Mas isso só saberemos com a conclusão de ensaios de fase 3 que já estão em andamento.