É possível prever a doença de Alzheimer?

Postado em: 16.05.2017

Autor: Dr. Glauber Ferreira, médico neurologista na Clínica da Memória

A demência de Alzheimer é uma doença degenerativa do sistema nervoso que afeta quase sempre os idosos. Os sintomas são a perda da memória, dificuldade de navegação espacial, distúrbios da linguagem e do comportamento. Esses sintomas amedrontam muitas pessoas que sonham em desfrutar da terceira com saúde, especialmente aquelas que tem parentes acometidos da demência de Alzheimer. Mas existe uma forma de prever o doença?

É importante que se explique que, embora os sintomas se iniciem na terceira idade, a doença de Alzheimer começa bem antes da demência, que é a perda progressiva das habilidades cognitivas. Sabe-se hoje que existem mudanças nos cérebro que antecedem em décadas a perda de memória. Anos antes dos sintomas existe o acúmulo no tecido cerebral de uma proteína chamada de Beta-amilóide. Essa proteína existe em todos nós, mas por causas desconhecidas ela passa a se acumular no cérebro de algumas pessoas. Essa proteína vai se acumulando ao longo do tempo até ela parece induzir uma segunda anormalidade.

 

Uma proteína chamada de tau, também presente no cérebro normal, muda de formato e passa a ter propriedades tóxicas. É o acúmulo do tau anormal que provoca perda de conexões e de células que leva aos sintomas da doença.

 

Ainda não existe um teste capaz de prever a doença de Alzheimer

Hoje existem exames de imagem do cérebro capazes de detectar o acúmulo da amiloide. O problema é que, embora necessário, o acúmulo de amiloide não é suficiente para que a doença se desenvolva . Cerca de um terço das pessoas com excesso de amiloide cerebral não manifesta doença nenhuma. Mesmo diante de uma paciente com uma imagem alterada, não podemos afirmar com certeza de que desenvolverá Alzheimer. E quanto à proteína tau? A presença da proteína tau anormal é fortemente sugestiva de doença de Alzheimer. O problema é detectá-la através de exames. Técnicas mais modernas de imagem envolvem um novo tipo de contraste que detecta a proteína. Porém sse contraste ainda está em fase de teste e tem dificuldade de chegar dentro das células, onde fica a proteína, e de separar o que é proteína normal e o que é proteína alterada.

E quanto à genética? Alguns testes podem indicar que uma pessoa tem maior risco de desenvolver a doença, mas não podem prevê-la. Mutações no gene da Apolipoproteína E4 (ApoE4) aumentam o risco de Alzheimer em até 12x, mas nunca determinam de forma categórica o surgimento futuro da demência. Não se costuma pedir esse exame fora do contexto de pesquisa médica justamente porque sua presença não é determinante de doença e porque ainda não dispomos de tratamento eficazes para evitar o mal de Alzheimer.

Em alguns poucos casos, menos de 5% das pessoas, o Alzheimer é determinado por uma mutação chamada de dominante. Nesse casos a probabilidade de doença é altíssima. Cogita-se esse exame em famílias onde a doença afeta diversas gerações com início dos sintomas muito cedo na vida, por volta dos 50 anos.

Como atualmente não temos como prever a doença de Alzheimer, a sugestão que faço a todos que me perguntam a respeito de prevenção é que se cuidem. Atividade física, alimentação correta e práticas intelectuais são sabidamente protetoras. Para saber mais sobre prevenção, acesse os diversos textos no nosso blog sobre prevenção de doença de Alzheimer.