Como posso ter epilepsia se meus exames são normais?

Postado em: 21.02.2017

Autor: Dr. Vitor Hugo Pacheco, médico neurologista na Clínica da Memória.

Epilepsia é a doença que tem como sintoma principal as crises epilépticas, comumente chamadas de “convulsões” pelas pessoas em geral. Essas crises podem aparecer espontaneamente, sem uma razão específica, como traumatismo craniano ou infecções que afetam o cérebro. Muitas vezes não se sabe porque o indivíduo começou a apresentar a doença, ou de onde ela surgiu. Então aparecem as dúvidas por parte do paciente e seus familiares.

E quando o paciente com epilepsia faz todos os exames solicitados pelo médico e não se encontra nada anormal? Acredite, essa situação é extremamente comum. Nessas ocasiões é difícil explicar e convencer os mais desconfiados que os exames podem ser normais mesmo na presença da doença, inclusive com crises frequentes. Quando falamos de epilepsia não podemos usar a mesma lógica de um exame de raio X ou ultrassonografia. Nesses últimos, um resultado normal praticamente descarta a possibilidade de anormalidades. No caso dos exames para epilepsia a história é diferente.

Os exames iniciais que devem ser realizados em um paciente com suspeita de epilepsia incluem um exame de imagem e um eletroencefalograma. A princípio, o único exame de imagem com resolução boa suficiente para se encontrar pequenos defeitos no cérebro é a ressonância magnética de encéfalo. Tomografia é realizada quando não se dispõe de ressonância, mas as chances de se encontrar pequenos defeitos no cérebro são pequenas com esse método. Mesmo assim, só uma quantidade menor de casos de epilepsia apresentará defeitos visíveis pela ressonância magnética. A maioria dos exames será normal. Isso não significa que o paciente não apresente a doença, mas sim que a anormalidade no cérebro causadora do “curto-circuito” é muito pequena e o exame falhou em detectar. Na maioria dos casos, não adianta repetir o teste tentando encontrar alguma anormalidade. Da mesma forma, se o exame for anormal a resposta está encontrada e não existe necessidade de repetir exames para “acompanhamento”, a não ser que haja alguma mudança nos sintomas do paciente.

O eletroencefalograma é o estudo mais específico para epilepsia. Isso quer dizer que esse teste é o mais indicado para se tentar saber se o paciente tem a doença ou não. Não existe praticamente nenhuma outra indicação para esse teste a não ser descobrir se a pessoa tem epilepsia, convulsões ou não. Esse exame grava as ondas cerebrais, assim como um eletro do coração, e o neurologista procura as ondas anormais que indicam a tendência para se apresentar convulsões. O problema desse teste é que somente um terço das pessoas com epilepsia apresentará anormalidades na primeira tentativa. Isso porque o exame grava somente as ondas cerebrais durante aquele curto período de 20 a 30 minutos. Se durante aquele tempo o cérebro funcionar normalmente o exame será normal. Isso acontece com epilepsia frequentemente. Entre uma crise e outra o cérebro pode se comportar normalmente. Nessas ocasiões vale a pena repetir o eletroencefalograma. Quanto mais se repete, ou quanto mais prolongado for o teste, melhor as chances de se encontrar alguma anormalidade. Realizar o teste durante sono também ajuda porque as crises epilépticas tendem a acontecer com mais frequência durante o sono.

Portanto, o diagnóstico de epilepsia depende muito mais da avaliação clínica de um neurologista, com base na história das crises relatadas pelo paciente e cuidadores. Os exames complementares, nesse caso ressonância e eletroencefalograma, ajudam a identificar e a classificar o problema, mas podem ser completamente normais. Se assim forem, repetir o eletroencefalograma pode aumentar as chances de se encontrar alguma anormalidade. Dificilmente se necessita repetir a ressonância. Contudo, se o neurologista acredita que o paciente apresenta epilepsia, é correto acreditar mais na sua habilidade clínica que em testes complementares.