Doença de Parkinson começa no aparelho digestivo

Postado em: 07.03.2016

Autor: Dr. Glauber Ferreira, médico neurologista na Clínica da Memória.

Um estudo publicado no periódico Annal of Neurology sugere que o nervo vago, que conecta o aparelho digestivo ao cérebro, pode transportar a doença de Parkinson do estômago até o cérebro, e que a secção precoce do nervo poderia deter o avanço da doença. Isso é o que diz a pesquisadora chefe do estudo, a Dra Elisabeth Svensson, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

Ainda existem muitas lacunas no conhecimento sobre a doença da Parkinson, mas já se sabe que o aparelho digestivo é afetado bem precocemente, muito antes dos surgimento dos sintomas motores, como tremores, rigidez e dificuldade de caminhar. Um dos primeiros sintomas da doença pode ser intestino lento e constipado. A constipação é causada pela destruição de terminações nervosas provocada pela acúmulo de sinucleína, a proteína causadora de Parkinson. Estudos com medicina nuclear e biópsias de estomago e intestino denunciam a presença da proteína anormal nesses órgãos.

 

Nervo vago liga o cérebro ao estômago.

Nervo vago liga o cérebro ao estômago.

 

O estudo da Dra. Svensson levantou o histórico de mais de 10.000 pacientes submetidos a secção do nervo vago (vagotomia) nos anos de 1970 e 1980 para tratamento de úlceras estomacais. Os cientistas compararam a incidência de doença de Parkinson nos pacientes que tiveram o nervo vago cortado com aqueles que não se submeteram ao procedimento. O que ele viram foi que a ocorrência de Parkinson naqueles que tiveram o nervo cortado foi 50% menor do que no grupo que não fez a cirurgia.

De alguma maneira, parece que o nervo vago é o caminho que leva as proteínas anormais do aparelho digestivo ao cérebro e que, ao se interromper esse caminho, confere-se, ao menos em parte, proteção contra a doença. É como se reduzisse o risco do trato digestivo “infectar” o sistema nervos. Os pesquisadores enfatizam que o benefício só está presente se a cirurgia tiver sido realizada muito cedo na vida dos pacientes e somente se a secção do nervo tiver sido completa.

Fonte: ScienceNordic.com

COMENTÁRIO DO ESPECIALISTA:

Há algum tempo se sabe que a doença de Parkinson começa no aparelho digestivo. A patologia está na barriga anos antes de qualquer sintoma como o tremor ou a rigidez. Também já se sabia da possibilidade da proteína responsável pela doença de Parkinson , a sinucleína, se comportar como um agente infeccioso que inicialmente “contamina” o aparelho digestivo para somente depois avançar para o cérebro. O que o estudo mostrou é que o caminho até o cérebro talvez seja o nervo vago. Não se está sugerindo que se corte o nervo vago como prevenção da doença de Parkinson, até mesmo porque esse procedimento obsoleto não garante a prevenção da doença e tem sérias consequências na digestão.

A descoberta descrita no estudo diz respeito a forma como a doença se propaga no corpo antes de atingir o cérebro e de como podemos agir para impedir esse avanço. Se pudermos impedir ou retardar o alastramento da doença do aparelho digestivo para o cérebro talvez possamos prevenir que a doença atinja o sistema nervoso central, onde a doença destrói neurônios responsáveis pelo movimento do corpo.